nunca será ontem

 

Se semana que vem for nunca mais

Pesado o peso, medida dada.

Se a manhã for de sol ou qualquer

Aniversário, festa, carnaval, perfume.

 

Se essa voz me fizer recuar

Com seus lábios mentindo mentiras agudas.

Se essa dor se mostrar ser certeza

De que foi erro, foi falha, foi perda de tempo.

 

Essa conversa que…

Essa história de…

 

Se

E se

E se

Se sentir

Se sentar

Se segurar

Se seduzir

Se separar

Se sepultar

 

Se amar e morrer desse amor

Sem fim

Sem limite

Sem razão

Sem espaço, tempo ou coração

Esse amor que sangra

Esse amor que fere

De lâmina fria

De olhar calculado

Sem qualquer melodia

E se?! E se?! E se…

Transforma, se recria e traz a paz.

Se distorce e anuncia que já não quer mais

Mas em seguida já renasce com a razão de um beijo

E sem sentindo se entrega em prantos ao desejo

E somos um, e somos mais, mas somos sempre os mesmos.

Sempre os mesmos.

 

Se semana que vem for nunca mais

Que o agora seja para sempre.

retrato do invisível

Corre o corpo

A voz que não diz o que os olhos confessam

Distantes demais pra que possam se notar

Perdidos em seus próprios mundos

Olhos fechados pro que é dois

Sou só um, eu e você

A culpa não é minha

É sempre sua

Um jogo antigo

Em que o nosso perde sempre

Corre o corpo

O desejo pelas coisas, não pelo sentir

O sentimento que escapa

Sem sentido

Sem desejo

Só se pode sentir dor

Tortura diária de dois corações

Disfarça, encontra a beleza e realça

Na tentativa de reencontrar o amor

Palavra dura dita de maneira indiferente

Tanto faz, pode ser…

Quanta questão de mim faz você?

Sem um boa noite num até amanhã, no final (agora?)

Um dizer do futuro prevendo o que parece ser irreversível

Divisível por um

Eu que nunca fiz

Agora aqui estou

Espero que te faça feliz

Mesmo sem ainda saber o que restou

Me remexo pra poder viver essa dor

“A arte nunca vem da felicidade”

Posso ver seus olhos lendo isso

Num misto de dor e sorriso

É mais difícil do que eu imaginava que seria

Duas crianças querendo brincar de alegria

Mas ser gente grande é muito desgastante

Eu sinto muito ter que viver esse instante

E saber que agora, ficou chato

Um novo fim pro nosso auto retrato.

todas as vozes

As páginas estão abertas. A mente está em branco.

 

No que transformar todo esse anseio que nos consome?

 

Desejo por tudo. Vontade de tudo, ao mesmo tempo, o tempo todo. O mundo nos fez assim, a vida nos disse assim, nós sabemos o que somos?

 

Precisamos de espelhos justos. Espelhos que não tenham piedade de quem somos. Espelhos que nos digam tudo.

 

Nosso medo é imperfeito

O que é comprado, não é seu por direito

Adquirido dentro do sistema

Compensa o seu cheque

Dinheiro não vem de poema

Acende o seu bec

E esquece que existe um problema

Contradiz e se faz de feliz

Isso vende

Entende?

 

De que lado sua balança pesa mais?

 

Precisamos de espelhos justos. Roupas finas, coisas caras, cervejas geladas e belezas raras.

 

Nossa preocupação é o social

Fazer a social e ter pinta de legal

Somos politizados

Nossa política é pro nosso lado

Mas fingimos nos importar bastante com quem está distante

Afinal o importante, é parecermos interessantes.

 

Espelhos que não tenham piedade de quem somos. Ou do que fingimos ser.

 

Quanto disso tudo de fato é você?

 

Somos os mais duros críticos do sistema que alimenta os nossos luxos. Na teoria somos diferentes da prática. Nossa “mobilidade estática”. Todos temos um motivo pra não abrir mão, todos temos um motivo pra seguir conforme o plano. Não olhamos pra frente, o que são cinco anos pra gente? Eternidade que se extingue em segundos.

 

Em cinco anos ou mais, talvez possamos entender ou admitir que não sabíamos nada.  Nada.

apoio

Você tem uma bengala quebrada. Você sabe que ela está quebrada, mas quando as suas pernas doem, você se apoia nela e cai de cara no chão. Você sabe que ela está quebrada, mas não contém o impulso de buscar apoio nela. E acaba sentindo ainda mais dor do que sentia antes.

Eu vivo no vazio de ter sido esquecido

No vazio da vontade

No vazio do medo

Eu vivo no vazio de quem não deseja mais

De quem não sabe

De quem não almeja

Eu vivo no vazio de estar perdido

De uma falta de vontade, na ausência de um sentido

Eu vivo no vazio que não quer calar

Eu vivo?

valor

Não havia tempo. Sua mente estava formatada a esse pensamento. Não havia tempo, nem tão pouco um argumento que pudesse dissuadi-lo disso. Era sempre a última hora, era sempre urgente, mesmo quando se tratava daqui que morria sem ser realizado. Ele estava paralisado.

Sentia o peso da inanição sobre seu corpo. Sentia o sono da inanição sobre sua alma. Sentia as dores da inanição em seu peito. Sentia a morte na inanição de seus dias. Faminto por algo que nem sequer compreendia.

Doses de realidade transmitidas na tranqüilidade segura dos veículos de comunicação. Veja o mundo, sinta o mundo, seja o mundo, seu imundo.

Não havia paz, e assim ele entendeu o que o fazia diferente daquilo que havia sido, assim ele entendeu que não havia se perdido, apenas não possuía mais tempo pra se alimentar daquilo que o nutria tanto.

Sem tempo, sem alimento, sem paz. Aos poucos percebia o que o havia tornado incapaz. Como pode um homem ser pleno sem seu alimento, sem seu tempo, sem sua paz. Como pode um homem atingir seu ápice se não lhe é permitido saborear-se de si?

Que gosto tem suas manhãs? Que cores tem seus sonhos? Que sentimentos se esfregam em suas esquinas?

Não posso me desvincular do que fui, mas sinto que me perco enquanto lido com as obrigações amaldiçoadas do dia a dia a ferro e fogo. Me deixo distante do que havia de mais pleno e absoluto, me entrego ao fútil ao inútil, ao efêmero estado de prazer das coisas. Coisas novas, coisas belas, coisas caras.

Faces que se contradizem, minha máscara são as minhas marcas, cicatrizes que escondem o que há no meu abissal profundo. A mesma luz que guia é a luz que cega. Quem não se permite a profundeza, jamais encontra a base. Sustento do pão nosso, do bom nosso, do ter nosso, do ser nosso, do meu, meu, meu, meu, meu!

Ter.

Sentia o peso da obrigação, a pressa pra bater o ponto, pra esperar o quinto dia, pra arcar com as conseqüências de um estilo de vida, pra fazer parte. Foi mais do que fazer uma escolha, foi aceitar. Ceder. Mas não significa calar, esquecer. É temporário, tudo é. Não é?

Se não há tempo praquilo que é eterno, não há sentido em ser.