weird fishes

Esse silêncio é uma faca que perfura o meu coração com lentidão. Mas ainda assim, não digo nada. Deixo que ela entre na mais profunda fresta do meu oceano vermelho. Lá, onde os terremotos começam, com uma alavanca a faca abre o caminho e água e lava se consomem enquanto eu escolho qual das duas deve vencer esse batalha. Em mim tudo fervilha, numa dor que jamais sonhei sentir. É preciso deixar que esses opostos se eliminem, pra que no fim, eu possa encontrar o que restar de mim e seguir.

 

http://www.youtube.com/watch?v=57q2uFaMjNs&list=FLkgeorsjWmBw3hsHlmvhw3w&index=22&feature=plpp_video

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pra ver a imensidão

Quase tudo pronto para o lançamento. Pelo rádio ouço as ultimas instruções do comandante, ele termina suas palavras dizendo: e que Deus te abençoe.

Eu vou ser o homem mais próximo de Deus. Eu vou ser o homem que irá romper os céus. Começa a contagem regressiva, eu fecho meus olhos e quando os motores se ligam a lata em volta de mim trepida aceleradamente. Cinco, quatro, três, dois…

O som das turbinas cuspindo fogo. A velocidade aumentando e o azul cada vez mais perto, cada vez mais meu. Uma luz vermelha se acende, uma parte da espaçonave fica pra trás. Fecho os olhos e consigo vê-la caindo, ficando, se perdendo do todo, ela não vai ver as estrelas. Caiu pra que a nave fique mais leve, pra que a aerodinâmica seja ideal pra romper a barreira de gases, caiu enquanto eu ainda subia.

A pressão aumenta. A cabeça pesa, o pensamento fica lento. Apago. Abro os olhos sem saber por quanto tempo fiquei no escuro, olho pra fora e nada do que eu vejo me é familiar. Um lugar cheio de brilho, os ruídos daquela lata velha espacial.

Sinto que nunca mais vou voltar. Levanto, caminho contra o empuxo, e puxo a alavanca. Quero ver Deus no vácuo do infinito.

Na terra do homem de um Deus cruel de papel

 

Cinco minutos

Cinco minutos pra deixar o mundo mudo

Pra cair no abismo do absurdo

Cinco minutos e eu mudo

Cinco minutos e eu escuto

Eu esqueço

Só mais cinco minutos e depois eu não volto nunca mais

 

Não teria motivo algum pra voltar

Mesmo que eu quisesse

Já vi tanta coisa podre nesse lugar

Isso às vezes enlouquece

Eu fecho os olhos pra tentar continuar

Nem sempre dá

Nem sempre dá pra apagar

 

Se estamos aqui, estamos na beira do caos

Enfiados nessa lama, a lama do manguezal…

Apontando armas, pedindo dinheiro, desvalorizando a vida

Estamos em busca de um bem maior, em busca de luz e espiritualidade

Tudo isso dentro de cada nota e moeda que houver no seu bolso

Passa tudo e fica quieto.

 

“Fica quieto ou eu te calo pra sempre

Fica quieto ou eu te enfio uma bala no meio da mente

Simplesmente, envolvente.

Argumentação excelente, estudo a base de água ardente

Pouca verba, muito esforço pra criança carente

O pai chegava em casa e sentava o cacete na gente

Com você não vai ser diferente, quero ver falar fiado com o cano no meio dos dente!”

é por isso

Em mim, nada. Sai livre, pesado, arrancado de dentro, pedaços e sangue. E cada voz por sua vez. Eu prefiro a morte pesando meus ombros, eu não sei se vejo ou se só tento tanto que enxergo; só.

 

Deus mandou noticias. Disse que era tarde, que vinha outro dia.

 

E a ira do pedinte diante do não, a corrida cada vez mais lenta dos dias de chuva. O frio na espinha que arrepia o medo nos olhos e alimenta a fome do peito. Conversa.

 

Metralhadores, pá pá pum, ta ta ta tá! Tum dum dum, pum tac tum tá!

 

Conversa cega

 

Deus mandou avisar que não. Não.

 

E a fome do menino? E a cor dos olhos da menina? A voz do homem, bicicletas, telefones?

 

A cor que não o vê, o nada que cabe em cada um de nós, nessa dor do querer sem ter que ir atrás. Nessa, noutra, naquela ali de lá, de lado, de frente, de costas, de tudo que é forma, de tudo que é jeito. Ir sem pressa, ir com força, ir com tudo e vir de dentro pro que há de mundo. Mundo todo e mundo dentro de ti. Fundir.

 

Deus mandou dizer que dá. Pegue.

 

E dê a vez. Saia da fila e ande através de existir. Comece e termine e converse e termine. Termine. Deus mandou dizer que chega de inacabar a vida. Deus mandou dizer que chega de inventar desculpas e palavras!

 

Só que Deus…

 

Deus não veio.