conversa de bar

Conheci um homem que via coisas. Um homem que via coisas que ninguém mais via. Conheci um homem que via coisas que ninguém mais via, mas não dizia nada pra ninguém a respeito. Conheci um homem que entendia, que nem sempre dá pra se fazer entender.

 

Um dia ficamos conversando por muito tempo, e entre os tragos, os goles e os tipos que vinham pedir por dinheiro, ele me disse que queria me dizer uma coisa. Virou o que havia de cerveja no seu copo, deu o último trago no cigarro, o jogou naquele vão entre o meio fio e o asfalto, dentro de uma pequena poça de água suja, tinha chovido mais cedo; e então disse de novo: “Quero te dizer uma coisa.”

 

Pegou o seu maço de cigarros, bateu a frente contra os dedos pra que pudesse pegar mais um de seus Hollywoods vermelhos. Olhou nos meus olhos e disse: “Você vai ficar ai segurando esse copo e olhando pra minha cara ou vai beber logo essa porra?”

 

Sorri, bebi e respondi:

 

O que é que você quer falar velho, quem ta enrolando aqui é você…

 

Olha moleque, não me chama de velho… eu tenho idade pra ser seu pai. – rimos.

 

Nesse momento um sujeito cai bar a fora, uma briga. Gritos de mulheres, socos, ponta pés. Dois homens chutam um bêbado caído no chão. Eu já de pé e relativamente afastado e alerta assisto a tudo sem qualquer reação. Ele sequer se levanta, sequer olha pro lado, acende seu cigarro e me observa.

 

Com a saída do dono do bar e o empenho dos demais clientes em apartar a briga, me aproximo e puxo um dos homens que chutava o bêbado, ele se vira transtornado pra mim e me da um empurrão. Bato as costas contra a parede. Penso: “Esse filho da puta! Ta bêbado também essa porra, se dou um bem dado nele ele apaga!” Quando vejo uma mão segura meu punho. Sentado ele diz: “Isso não é certo filho. Você quer mesmo ser como eles?”

 

Saio do foco da briga. Sento novamente a mesa, encho meu copo, pego um cigarro. Qualquer um podia ver a revolta nos meus olhos. Ele diz: “Você sabe que devia ter enfiado a mão naquele filho da puta não sabe?”

 

Acendo meu cigarro.

 

Essa é a saidera velho…

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Que o real seja tudo e que tudo seja real

Às vezes vem uma sensação de urgência em estar vivo. Uma necessidade de se dedicar às coisas que você realmente gostaria de ser, aliada a certeza de que o esforço é exatamente o que falta pra que você seja capaz. Abrir mão das convenções e arriscar uma vida plena ou se contentar com pingos de satisfação em meio a uma rotina de obrigações? Afinal, o que é de fato a vida? Afinal, viver é fazer parte desse jogo insano? Os vencedores no fim das contas são mesmos os que alcançam o lucro? Os que conquistam seu espaço no mercado e adquirem bens e mais bens? Os que pagam suas contas em dia e não podem se atrasar cinco minutos pra não perder o ônibus? Os que se desgastam em jornadas duplas de trabalho mal remuneradas pra poder dar o que comer aos filhos? Os que enganam, mentem e abusam para poder ter dinheiro? Os que assaltam, matam, furtam?

 

Pra mim parecem todos perdedores. Todos eles, todos nós. Todos, reféns. Prisioneiros que simplesmente não tiveram escolha. Homens e mulheres atirados no mundo e que para sobreviver abrem mão do que são, ou sequer chegam a ter consciência ou tempo pra se descobrirem. A vida em si é mesmo por vezes dura e impiedosa, porém justificável. Já a vida pelo homem, essa me parece sem sentido, cruel e torturante, um tormento injustificável capaz de ferir corpo, mente e alma. Pode parecer exagero, mas alimentar o ser de esperança e de vontade e aos poucos ir amputando esses desejos o mostrando a crueldade de um mundo que segrega e descrimina; isso pra mim não é vida. Não vou pautar minha existência nisso. Está próximo o momento em que vamos encontrar nossas verdades, mesmo que nem todas elas sejam belas e eu, aqui e agora me coloco novamente a disposição a tudo que for real. Que venha a mim a vida, a vida em sua forma plena, não mais essa vida inventada de controle e manipulação. Tudo o que peço é um pouco de sorte e muito de coragem, pra que eu possa encontrar o meu destino e propagar a liberdade. Que Deus me ajude e que o amor me guie. Amém.

 

Sua palavra é querer

Tudo

Pra você é desejar

Mas seus desejos não fazem sua vida sair do lugar.

 

O seu desejo é dizer

Dizer

Ao mundo o que vê

Mas nunca se preocupa em aprender a falar.

 

Você deseja tanto que nem dá pra acreditar

 

Você fala tanto que nem dá pra desejar

 

Você e eu não somos eu e você

 

Você e eu somos tudo, eu não vivo sem você

 

Onde você está que não me responde?

 

Estou vivendo e depois te quero só pra mim

 

E se eu não tiver mais vontade de viver assim?

 

Ai é o fim, ai é o fim…

Eu me vejo aos poucos

Meus pedaços se desfazem no asfalto frio

É hora de deixar acontecer

De perder todo o sentido

Não fosse eu, seria o que?

Eu nunca quis ser o bandido

Mas assim, o que posso fazer?

É melhor correr, melhor correr…

terça, depois de segunda, a mesma.

Experimentou um cansaço novo. Não era como aqueles que se tem depois do futebol ou de uma longa caminhada. Muito menos daqueles que vem depois de um longo dia de trabalho. Era um cansaço interminável, um cansaço que comia o peito como se fosse um verme. Como se alguém raspasse seu coração com uma lixa, lentamente. Isso o deixava imóvel. Inerte, descontente.

 

Ver a “dedicação” passando os olhos nele e se colocando com um ar superior, só por ele não ter força alguma pra tirar e empregar naquilo, fazia com que a raspagem fosse ainda mais profunda. Paciência que acaba lá, também acaba cá. E no desenho desse embate, ele morria.

 

Mais um fim de dia.

segunda, a feira.

Converso com o vento, e o meu silêncio é um péssimo argumento. Passo a passo sigo o rumo de casa, mesmo que a casa não seja sequer minimamente minha. Espero o ônibus enquanto enxergo os prédios brotarem do chão. Essa cidade acelera cada vez mais fundo, um dia ainda vai bater de frente num muro. Penso em ti, penso em mim, penso no trabalho. Como era bom ser criança, Nina. Sou tão falho que às vezes não consigo nem me enganar. Vontade de chutar o mundo, deixar a vida e ir em busca de alguma coisa que tenha valor sem ter que ter um custo calculado em dinheiro.

 

As pessoas me olham nas ruas, eu não sei se eu falo o que eu penso sem perceber ou se minha cara já diz tudo. Só sei que quando eu dou por mim, já se foram dois quarteirões. Sinais verdes, sinais vermelhos, esperar. Minhas mãos tocam as chaves. Sempre elas quando eu paro na faixa. Ajudam a controlar minha ansiedade e ao mesmo tempo me trazem pra rua. Não estou em casa.

 

Talvez fosse mais honesto eu dizer que faz muito tempo desde que descobri que eu nunca estiveem casa. Meuconceito e ideal de casa partiu da visita a outras casas, do meu experimentar a liberdade e comodidade alheia. Coisa que nunca tive na casa dos meus pais e que nunca vou ter na casa da minha namorada. Sou um homem sem lar e essa ausência de espaço; não sei se por desculpa ou se de fato, me impede muita coisa.

 

Abro meus olhos caminhando na volta do trabalho. Pra que tanta dedicação e tempo? Dinheiro? Sério? É isso? Até o fim é isso? Poxa, mas que merda hein! Acordar, levantar, trabalhar, almoçar, voltar, trabalhar, ir embora, comer, tomar banho, ver tv, dormir. Sério que a grande maioria dos meus dias vai ser assim? É, meu ego esperava mais do que ser só mais um. Será que ele está errado?

 

O bom é que logo agora, começa a tocar um Monk. É, deve mesmo existir outras formas. Preciso andar mais, pensar mais, viver.