segundo de segunda ou que horas são?

Procuro em vão por alguma explicação. Repasso os lugares por onde me joguei, mas não encontro certeza. Minha trilha sonora é um tic-tac que vai e vem cada vez mais veloz enquanto eu sinto algo se aproximando cada vez mais, cada vez mais.

 

O tempo é infinito.

 

Converso com o espelho. Onde vou? A resposta é sempre hoje.

 

Chega um tempo em que não dá mais pra dizer que ainda é cedo. Já foi tarde. Já é tarde e eu digo o mesmo que disse hoje pela manhã. Um peso me consome e minha leveza está numa fuga pra qual não vou poder escapar. Falta pouco pro meu fim. Sinto o tic cada vez mais tac da minha lucidez. Luz se fez.

 

E nesse caminho quase escuro, não estou seguro donde devo ir.

 

“This is jazz!”

 

Como se eu tivesse ouvido isso de alguém. Mas bem… fica assim.

 

Isso não me serve.  Ta bem, não é também, mas tudo bem.

 

“tento descobrir a quem culpar”

 

É, como nos velhos tempos, só que sem a parte boa. Só que sem ter estado lá. Sem ter vivido aquilo. Tendo perdido, mais uma vez, na pior de todas as vezes.

 

E se é pra ser assim, então de que vale pagar tão caro e ganhar tão pouco?

 

Essa crise é bem maior que as outras. Em mim tudo é pesado, tudo é medido, mensurado.

 

Faz um tempo que isso já vinha sendo anunciado. Eu me questionaria, logo naquilo que bancava como certeza. Eu me questionaria, logo naquilo que repudiava. Eu me questionaria, em nome de um Deus não meu, em nome de um Deus do homem. Eu me questionaria no momento exato em que tudo tomaria curso. Falta de recursos.

 

Sei que daqui será definitivo. É a última chance pra eternidade que eu procuro. Daqui, pra sempre. E pra sempre o peso do que for deixado pra trás. São quase vinte e sete. E eu, eu ainda nada. Eu ainda anda. Eu não voa. Eu rasteja. Eu perde. Eu, cadê eu?

 

Tem tanta coisa que me faz. E tanta coisa que me exige. E tem tanta coisa que me alegra, e tanta coisa que me aflige. Eu menino monstro desse lado do lago tão pequeno. Eu menino grão nesse monte de terra infindável. Eu menino não.

 

Eu conversa que se joga fora, sorriso que se perde só, vontade que não passa.

 

Preciso ser. Preciso ser e perceber. Preciso ser e acreditar. Preciso ser e enxergar. Preciso eu.

segunda já foi tarde

Ainda é cedo pra ceder. A semana ainda nem começou. Eu queria fugir, queria ver o mar e me afogar em sutilezas. Apagar do peito esse amontoado de incertezas. Simplesmente mergulhar em busca de mim.

 

A semana ainda nem começou. Segunda-feira.

 

Faz um dia lindo. Céu azul, sol brilhando. Ainda é cedo pra ceder. Os telefones tocam, a cidade anda. Petrucciani toca, eu não me movo. Ainda é cedo pra acordar. Já cedi. Já sou outro e estou aqui. Já perdi, deixei de ir. Fiquei, morri. Queria estar em outro lugar. Algum lugar mais perto do que eu sou.

 

Fugazzi. Às vezes eu sinto o ódio que acumulei durante a vida se debatendo no meu peito. Ser uma boa pessoa, às vezes é simplesmente, não sair por ai atirando com uma metralhadora.

 

Radiohead. All i need. Logo eu que nunca soube nada. Nunca soube dizer o que falta, nunca soube dizer o que quero, nunca soube responder aquela velha pergunta: Qual é o seu sonho?

 

Os de hoje eu não me lembro, e te digo que cogito nem sonhar a noite, é como se eu me transportasse pra um outro lugar, parecido com esse, mas diferente.

 

Às vezes retorno mais leve, às vezes mais pesado.

 

Sei que aos poucos tudo acaba.

 

Em alguns momentos, a gente tem que aprender a apreciar o fim.

 

One armed scissor.

 

De volta ao começo. Atrás daquilo que é real.

da janela

Nunca fomos e nem seremos

Talvez seja apenas questão de tempo

Mau tempo

Faz frio

Enquanto eu tento

Remoendo lento o mesmo argumento

A diferença é que não sou ninguém

E que aptidão seria essa?

De ser nada

Um papo de possibilidade impossível

Encaixe improvável, inviável.

Faz frio em qualquer coração

E eu repito a música

“por isso não venha dizer que não…”

Não, não digo não.

Nunca fui e nem nunca tive

Acordo cedo e desperto triste

Não tive escolha que não fosse essa

Não fiz fuga, não fiz graça, não quis guerra.

Minha história não daria novela

Eu escrevo, eu esqueço, eu tropeço.

No fim é só um monte de letra junta.

aos que me sustentam, suportam e elevam.

Quem é você?

Um amontoado de coisas pesadas e leves.

Medos, vontades, defeitos e pequenas glórias.

Sorrisos sinceros, sorrisos forçados, lágrimas que se escondem.

Quem é você?

É o belo entrelaçando-se ao bestial;

A corrida do relógio rumo ao encontro com o inevitável.

Caminho, trapaça do destino, irreal, concreto, intangível.

Você que não cabe em sim.

Você que não cala, que não corre, que falha.

Que se permite ser permissivo e estonteante.

Êxtase, fome, miséria e bondade.

Você, eu, nós, todos nós.

Quem somos nós?

E que nós nos unem?

Santos nós.

Agradeço todos os dias pelo destino que nos amarrou aqui.

Pipoca – oba!

Enquanto os carros passavam, a luz do dia ia sumindo lentamente e um alaranjado desenhava o céu de um vento frio e um peito apertado. Era solidão, era frio, era falta de razão, era frio, era frio e vazio.

 

O relógio apontava dez pras seis, a praça recheada de pessoas indo e vindo, um ou outro ali; sentado, a espera de sabe-se lá o que. Ele era mais um desses. Os pontos de ônibus se enchendo cada vez mais, quanto mais perto da noite, mais perto do caos, mais desejo pela paz e assim, menos paz.

 

Uma fila se formava em frente ao carrinho de pipoca, cada vez mais gente. Passou a perceber os tipos que se vê na rua. Gente de todas as formas. Reparando bem em cada um, ele se surpreendia com como aquele cara com cara de mal passava ali e de repente abria um sorriso sem mais nem menos. Deve ter se lembrado de alguma piada, ele pensou. Enquanto isso a senhora, aquela velha e pequena senhora olhando pra todos os lados com seu olhar de reprovação e lamento. Outros tempos tia, outros tempos. Os alegres, os distraídos, os apressados, os perdidos. Todos passando pela praça, todos a caminho de suas vidas.

 

Olhou novamente no relógio, nossa, seis e quinze. Levantou, sacou a arma e abriu fogo a revelia. Três mortos e dois feridos. Dois homens, um estudante de vinte e dois anos e um advogado de quarenta e dois morreram. Além deles uma mulher de trinta e sete e profissão não revelada. Entre os feridos o dono da carrocinha de cachorro quente, tiro na perna e uma criança, um menino de nove anos que estava na fila.

 

Não foi ainda mais covarde, não se matou, não fugiu, não pediu perdão. Foi linchado pela população. Todo o tipo de gente queria um pedaço dele. Naquele momento, era indiferente, como fora por toda a vida.

 

Saiu em todos os jornais, em rede nacional. O prefeito prometeu aumentar a segurança da população. O medo se instaurou sobre a pacata cidade de porte médio. Pouca gente se sentou naquela praça nos meses seguintes.

Rumo de casa

Andava pela rua sem sequer notar por onde passava. As pessoas iam e vinham em caminhos que pra ele pareciam inevitáveis, cada passo na calçada parecia ser calculado, programado, coordenado. Se todos fechassem os olhos seguiriam da mesma forma, chegariam no mesmo lugar. Alguns tropeços e batidas seriam inevitáveis, mas certamente, todos chegariam ao seu destino mais cedo ou mais tarde.

O rapaz parado na esquina, com seu boné branco de aba reta, a senhora que vinha lentamente carregando inúmeras sacolas, o engravatado falando no celular. Todos sorriam ao mesmo tempo, todos dançavam a mesma música. Passando pela faixa de pedestres olhou dentro dos carros, todos os motoristas usavam o mesmo chapéu enquanto pisavam nos aceleradores ansioso pela abertura do sinal.

Descendo o calçadão uma festa. Os pedintes cantavam alegremente a vida, diziam todos num só coro: “De jeito maneira, não quero dinheiro, quero amor sincero. Isto é o que eu espero, grito ao mundo inteiro, não quero dinheiro, eu só quero amar, só quero amar, só quero amar!” Enlouquecida a multidão atirava suas moedas e notas. Ele sorria. Que mundo justo afinal.

Quando ouviu uma voz vinda de uma megafone em um grito ensurdecedor dizendo:”COOOOORTA!” Balançou a cabeça, passou as mãos nos olhos e assustado viu todos se virarem para ele. Uma mulher com uma prancheta e um fone de ouvido o pegou pelo braço dizendo: “Senhor, por favor, por aqui senhor.”

Foi levado para dentro de uma galeria onde lhe disseram que um musical estava sendo gravado na cidade, lhe indicaram quais ruas poderia usar pra chegar até em casa.

Seguiu seu caminho assobiando entre os passos desconexos da realidade. Chegou em casa, tomou um café, ligou a tv. De novo o mundo era lindo, agora estava em paz, tinha certeza de que mundos perfeitos existem. Infelizmente, ele não fazia parte de nenhum deles.

Pior que o não é não ouvir nada.

A porta bate na sala, as chaves balançam. Um vento frio sopra no corredor.

– O que você ta fazendo sentado ai? – ela nunca entende.

– Nada, não posso sentar no chão da minha própria casa?

Ela não responde, vai pro quarto, joga a bolsa na cama. Pega um monte de papéis no bolso, dinheiro, notas fiscais, uma moeda cai no chão. Ela se abaixa e olha debaixo da cama.

– São só cinco centavos, deixa isso ai.

– São só cinco centavos, mas são meus cinco centavos. E até parece que eu vou ficar deixando esse monte de sujeira debaixo da cama, não sou porca como você não…

Cinco centavos é sujeira. Como um papel de bala que cai no chão, ou uma batata palha que se perde do sanduíche no caminho pra boca. Vivemos pra conquistar o direito à sujeira, vivemos e sujamos pra que possamos alimentar o sistema, é ou não é? “Se eu não jogar papel na rua, o gari não vai ter emprego.” Não merecemos sequer viver.

– Você vai mesmo ficar sentado ai?

– Vou… vou sim. Você já parou pra pensar no que o ser humano fez com a vida?

– Não – ela faz uma cara de que saco e começa a arrumar a cama – me diga: O que é que o SER HUMANO, fez com a vida?

– Ele acabou com ela.

– O ser humano acabou com a vida? Uau! Então o que é que a gente ta fazendo aqui? – colocando a fronha nos travesseiros.

– A gente ta vivendo uma simulação de vida. A gente acha que isso é a vida, mas isso não é a vida. Isso é um processo que consome a nossa existência em prol de dar condição pra que alguns poucos possam viver muito mais do que eles necessitam viver.

– Olha só garoto sentado no corredor, deixa eu te falar uma coisa – ela larga o travesseiro na cama, caminha até a porta do quarto – A vida que você ta chamando de vida, não existe. Se você não tivesse que estudar, trabalhar, ganhar dinheiro… você ia ter que matar bicho no mato, morar em caverna e olha, honestamente, eu duvido que um menininho mimado igual a você ia dar conta de viver assim ta? Então para de ficar viajando ai e levanta essa bunda do corredor!

Eu disse que ela nunca entende. Eu disse…