“a praia nublada também é bela”

E então eu desperto no incerto

Enquanto brotam as flores filhas dos pingos de chuva

Pra harmonizar meu deserto e acalentar minha culpa

 

Outra fuga cheia de fome

Outro dia, outra vida, outro nome

 

Um não mais me quer,

Mas os outros ainda tentam crer

No norte que eu previ

 

Cada vez mais menos

 

Necessidade

Necessidade

 

Eu existiria em todas as suas formas

Mas escolhi a minha maneira pra viver

 

O peso que se esconde através de toda a leveza

Os golpes duros de um sussurro ao pé do ouvido

A dor de um olhar muito bem compreendido

Esse é meu peso, essa é minha medida

Minha fé, minha coragem, a minha resposta

 

O meu sorriso que andava tão perdido e vago

 

Nesse contra luz

 

A beira mar

 

Voltou à voz

A verdade vã

Num vício virtuoso

Pela vitória

 

Eu ganho mais quando deixo certas coisas pra trás

E me permito o imperfeito

 

Sorrio, mesmo que não seja bem isso

O que diz meu peito.

Incômodo

O medo bate a porta

Uma inquietação arquitetônica

Inconsumável

 

É preciso mover paredes

Com a leveza de uma brisa

Desfazer cidades inteiras

Dizimar populações

E perfurar o cinza que hoje guia o céu

 

Num misto de caos e planos

Sorrir mentiras sinceras

Beber verdades rasas

Tocar no contra tempo

E consumir as lágrimas

Na tinta que traduz o invisível

 

Um retorno ao que me fez

Uma busca pelo que perdi

 

Na eterna batalha pelo tempo agora

Uma saudade do amanhã me devora

E a incerteza do infinito me desperta de hora em hora

 

Uma inquietação me põe em movimento

Questiono o conforto

Em cada cômodo de mim

aluguel

Eu amanheci, mas ainda era noite. O berro do despertador no escuro. De pé. No ponto do ônibus, poucos carros passam, alguns pássaros cantam. Nenhum bom dia, nenhuma boa noite, nada além do caminho, o destino traçado.  Parafusos apertados, fumaça que sobe enquanto a água desce. Sem sol, sem fim.

 

A mala eu deixo no sofá. A vodca em cima da mesa. A tevê eu não ligo faz semanas. A geladeira é quase vazia e os armários tem menos roupas do que o chão. Os sapatos se perderam por debaixo do sofá, o relógio ainda vive. Só pra me lembrar que ainda existe tempo, só pra me lembrar, ainda não acabou.

 

O telefone toca. Eu não digo alô, mas do outro lado à voz já fala. Quer um preço. Meu trabalho nunca acaba. Não foi escolha minha. Ou será que foi? A campainha toca. Mais um gole antes que eu abra a porta, mais um trago antes que eu abra as pernas.

mosaico

Me perco

Estilhaçando meus sonhos

E entre o sangue e os cacos

O desejo eterno

Renasce

 

Silencioso e leve

 

Subverte a paz

Consolida a urgência

Escasso e breve

De mim se alimenta

 

Ganha asas

 

Num contorno irreal

Faz do nada uma arma

Me amordaça e ampara

Se declara

 

Enquanto o mundo cala

Antes que o mundo caia

Até que o dia nasça

ou que a morte me separe

 

ou que a sorte me repare

 

Dos cacos desses sonhos é feita a minha vontade

ensejo espacial

não há palavra em que caiba o que anseio em dizer

não há em mim conhecimento adequado para possuir a capacidade de expressar o que sinto

não há em mim exagero suficiente para isso

 

será que há em mim tudo isso;

ou apenas acredito em minha poesia?

baile da lua

Eu também tenho fome

Eu também sinto sede

Mas aqui, é melhor ignorar os desprazeres

 

Eu também tenho asas

Eu também quero vida

Mas às vezes, é melhor deixar-se só entre as paredes

 

Se é isso que desejas

Siga

 

Eu solto sua mão

Concedo meu perdão

Eu cedo

 

O peso de dois mundos

Quase inteiros

 

Pelas nuvens desse mesmo céu

Pelas ordens desse mesmo tempo

 

Um único e mesmo desejo

 

Eu faço o mundo ponto a ponto

Você quer tudo agora e pronto

 

Baila

 

Enquanto eu canto