pedaço de raiva

Eu quero ser um novo homem. Ter outro nome, outro sobrenome, o mesmo sobrenome. Eu quero ser vidraça pra que as suas pedras me desfaçam. Eu quero ser silêncio pra você nunca mais poder gritar. Eu quero apartamento com um quintal pra eu me matar.

 

Quero mudar de canal! Trocar de vida, correr descalço em direção ao mar. Óbvio e mais do que clichê; quero afundar.

 

Nada mais me satisfaz. Cadê? Cadê? Cadê? Ahn? Cadê?! Você não diz! Você não diz, não ouve, não vê, não sonha, não come, não mora, não dorme, não ama, não cede, não lembra, não finda e ainda teima!

 

Aaaaaaaaaah mas que moleque é esse que vira o mundo do avesso e sem pestanejar ateia fogo na vida?! De onde vem o sujeito que vive de ser defeito e ainda dá a volta por cima?!

 

Mas você sabe que é pouco, que é pouco, que é pouco.

 

Cadê? Cadê? O sentido

 

Sentido pra que se é só fazer sentir que me dá o prazer.

 

Eu nem lembrava onde eu tava. Porta de vidro, janela fechada. Atenção! Atenção! Não tem volume pra que eu possa calar. Ensurdeço, enlouqueço, esqueço.

 

 

Pedaço de raiva entregue no seu endereço.

pouco pra ver

Pouco é sempre pouco

 

Eu não ganho asas

 

Verdades fatiadas

 

Mentiras simbólicas

 

Pretextos

 

E disfarces em conserva

 

Nuvens passageiras

 

Tele novela

 

Eu aqui na vida

 

E a vida na janela

 

Pra ver o meu amor passar

 

Pra ver o meu temor sambar

 

Pra ver a minha cara

 

Depois que o carnaval terminar

transparecer transcendente

Começo a me calar, mais uma etapa de um processo movido por cores. Fui azul pra tentar me afogar e agora enxergo verde aonde quer que eu vá, mas sei, ainda não estou lá. A transição é transparente como a água. Me faz neutro, sóbrio, frio, calmo. Aos poucos se desfaz minha euforia, mesmo que ela ainda incida em pequenos picos. Disfarces de mim.  Sigo um novo rumo, numa velha fórmula, a mesma fórmula num novo eu. E eu nunca foi uma palavra tão adequada quanto agora, mas agora é. Agora sou eu e eu sou o agora.

o nada enquanto salvação

Hoje eu não quero nada do que seja real

Quero poder fechar meus olhos e encontrar o meu reflexo

Poder perder de vista a minha razão

E fazer verdades com meus restos

 

Quero explodir

Me espalhar

Me desconstruir

Peça por peça

Tijolo por tijolo

Certeza por certeza

 

Botar abaixo a minha conduta

 

Ser nada, fazer nada, viver nada

E assim vencer a luta

 

Recomeçar

 

E deixar que o mundo desfile suas infinitas possibilidades

 

Eu aceito o incerto

E abraço o deserto

Da minha imensidão vazia

linhas de azul em lua vermelha

Nas curvas de um silêncio lento

Acelero as minhas linhas tortas

Em busca de um caminho ameno

 

De passo em passo tudo quer que eu fique bem

De traço em traço, eu e mais ninguém

 

Enquanto o vento soprar

E a lua avermelhar

Por detrás de nuvens repletas de escuridão

– e incertezas

 

Tudo parece ser tão pouco nesse jogo de cores e palavras

Infinito abstrato que consome o nada que permito a mim

 

Cheio

Como a lua vermelha

 

Me desfazendo nas entrelinhas das estrelas

Ao sabor do vento e das cervejas

 

“Tento tanto, mas tão tonto perco o tempo e a direção”

 

Não existe borracha pra apagar o que se desenhou num coração

 

Vermelho como a lua

Fervente como o sol

 

Faço Azul

Pra tentar

Me afogar