maior que o sol

Eu disse tantas vezes. Quando eu olho pra trás, eu vejo que eu disse tantas vezes. Tantas coisas iguais, diferentes, únicas. Tudo dito, tantas vezes, tantas e tantas vezes. O que mais fiz foi dizer. Dizer foi o que mais me fez. O que mais fiz foi escrever e esperar que de alguma forma isso me trouxesse alguma coisa e que de todas as formas, isso me livrasse de tantas outras. O que mais fiz na minha vida, foi dizer. Eu vim aqui e me joguei entre as letras que tentavam me traduzir, eu afundei entre as vírgulas e pontos que eu esqueci no caminho. Fechei meus olhos e acreditei que essa era a solução. Sem medo, sem vergonha, sem querer nada em troca. Eu simplesmente vim e disse e parece que eu nunca mais vou deixar de vir. Nunca mais. Tenho coisas que são pra sempre, coisas maiores que o sol.

se eu silencio

Minha conversa com o silêncio é sempre cheia de argumentos. Desculpas cretinas e verdades simuladas. Sempre cheia de suposições e de um engajamento tão intenso quanto efêmero. Minha conversa com o silêncio muitas vezes pede música, pede água, pede fogo, pede passo. E assim eu faço, mas não calo. Sempre escrevo pouco quando é perto do meu aniversário.

desperteu

São dez horas da manhã e agora eu sei que quando despertei sozinho, às oito e quinze da manhã e percebi que havia esquecido de ativar o despertador, aquele não era eu. Aquele era um sujeito atravessado de sonhos que ainda cambaleava pra abrir os olhos e se movia lento e pesado enquanto lutava pra poder voltar à consciência pra algum dos muitos mundos que estavam abertos a sua percepção. Aquele não era eu, aquele era eu com sono.

segundo as segundas

A gente tenta

A gente quebra

Conserta, conserva

A gente aguenta

A gente espera

Preserva

 

Pra que?

 

Ouve sempre a mesma musica

Sangra sempre a mesma dor

Paga sempre a mesma conta

Ganha sempre o mesmo nada

Come sempre a mesma merda

 

A gente deixa a vida vir e quando vê já foi

Sem nunca ter sido

 

Sem ter se permitido

 

Sem força, sem vontade, sem sentido

 

A gente chora

A gente reza

A gente corre

E se apressa

E ignora

E se estressa

A gente implora

E se entrega

A gente nega, a gente nega, a gente nega!

E quando vê já era

 

Sem nunca ter sido

 

Sem ter se permitido

 

Morrer escondido

Buscando um abrigo

Num corpo perdido

Num copo vazio

Um calor pra esse frio!

 

Eu não vou cair

crendo

Você espera focar, mas eu não foco

Eu sou desfoco, desfalque, descaso

Sou um rabisco de alto retrato

Um anseio infinito, um ardor abstrato

Sou concreto, liso, raso, incerto

Afunde em mim e escolha um novo nome

 

Quando eu creio, nada desfaz

Quando eu creio, nada destrói

Quando eu creio, eu crio

E quando eu crio, eu vivo

E se eu vivo, eu sinto

Quando eu sinto, vivo, crio e creio

Nada, nunca mais pode ser igual de novo

 

Afunde em mim e me dê um novo nome

despertas

Eu não acordei. Não vim, não estou. Eu preferia uma surra pro sangue escorrer pela minha barba abaixo. Um olho roxo, hematomas. Eu preferia que o caminhão tivesse virado, ou que as pessoas tivessem me dito: “Não, não. Fica!”

 

Ninguém me impediu. Todos olharam assustados pro meu cabelo bagunçado e minha barba grande, mas ninguém me impediu. E então, eu não acordei. Mas estou de pé. Estou de volta, estou aqui lutando contra mim, contra o mundo, contra só pra ser do contra.

 

Eu ouço a mesma música que fazia sentido, mas agora não faz. Eu sento na mesma cadeira. Bebo na mesma caneca, fumo o mesmo cigarro e chupo a mesma bala. Eu estou dormindo, não é meu problema se não for um sonho, eu não sonhei essa noite. Agora é tarde.

 

Vontade de fechar os olhos e só abrir debaixo d água. Vontade de fechar os olhos e desaparecer. Vontades, mais que mil. Mover as coisas com a mente, ser invisível, voar, respirar debaixo d água! Mais que mil…

 

Eu não acordei, nem depois disso tudo. Eu não acordei, não, não estou de acordo. E se dia 21 for mesmo o último dia? E eu aqui. Eu aqui. Eu sei, mas eu queria mais. Não mais que isso, queria mais que tudo. Como faz pra acender, minha ascendência é Plutão, e Plutão não é nem planeta.

 

Pra onde eu vou? Desertei, e quando pedi pra voltar, ninguém me atendeu. Ou será que eu já voltei? Ou será que eu nunca fui? Acordei? Às vezes eu não tenho consciência do que faço, do quanto, do tanto, do todo. Mil e mais desejos. Tem tanto que eu tenho que fazer e ainda assim… Eu ainda nem acordei.